Bata panelas e peça silêncio

O barulho do outro me faz apreciar o silêncio?

Aqui. Sozinha o suficiente para voltar a escrever. acompanhada demais de pensamentos muito barulhentos. A angústia de correntes que me aprisionam são mais torturantes do que o barulho de acusadores. Acusam a não-suficiência. Para alguém que pensa que a solidão lhe cai bem, o suficiente é o simples. O menos. É quase a inércia.

Para alguém que acha que nada é suficiente, a inércia do outro é insuportável. Tão insuportável que o ataque é inevitável. O chamado à ação. “Inútil”, diz ele. “Não faz nada do que peço”, ou pior, “não faz o que espero de você”. Ah… o esperar. A expectativa. Que arma autodestrutiva! O outro é inútil, e eu que sofro. Repito, “inútil”, e o ouvinte, até então sem ciência, recebe o elogio impulsivamente motivador.

Contudo, vejo que “motivador” seja algo além do que o simples sentimento de impulso devido à uma feliz euforia de fazer algo. Neste caso, o elemento “motivador” vem mais do “motivo”. Razão. Razão contrária da concordância para com o pensamento do outro, mas a motivação para obter sua própria paz, no silêncio, executando o pedido daquele que protesta.

“Para mim, em você não há razão, mas farei o que pediu para que eu possa, então, obter seu deleitoso silêncio.”

Quebra brutal do silêncio

“Seu silêncio é minha paz.” Esta sentença é perigosamente forte por seus motivos implícitos. Primeiro, cansado das falas repetitivas carregadas de expectativas frustradas, o inerte fere o que protesta. Desta forma, também, ele pede pelo seu silenciamento sem data de validade. Suas palavras ferem para finalizar o ciclo de seu próprio incômodo. Segundo, o que ouve tais palavras, pela primeira vez ouve um protesto que não é o seu. Sente ser um tagarela incompreendido. Ele tem duas alternativas: se recolher ou voltar ao protesto.

Quando penso – aqui sozinha agradecida pelo silêncio – nos barulhos carregados de expectativas que me condenam, reflito também nos barulhos que já fiz e nas “inércias” que condenei. A solitude faz bem. Fingir possuir algumas certezas também é saudável.

Quem me dera os barulhos fossem menos recorrentes.

Quem me dera os silêncios pudessem ser ouvidos.

O suficiente é apenas seu.

 

 

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