Estava tudo Ben

De uma coisa sabíamos: seu nome era Ben. Não se sabia muito sobre ele.

Poucas foram as vezes em que realmente fora visto e contemplado. Agraciado com uma beleza invejável, possuía traços faciais fortes contrastando com os suaves, simetricamente planejados, exalando um certo tipo de harmonia. Caminhava com o corpo ereto, olhar perdido no horizonte – fato justificável por sua miopia – aparentemente procurando por respostas que se manifestariam no cume de árvores ou no topo de construções sobre questões que, talvez, nenhum outro ser humano qualquer cogitaria pensar. Não possuía muitos amigos. Pessoas eram cruéis. O Pitohui era deveras interessante: o único pássaro venenoso no mundo. “Um canto bonito, uma natureza mortal.”

Certa vez, caminhando pelos labirintos de suas ruas mentais, se deparou com uma moça solitária sentada no meio-fio conversando consigo mesma. Ouviu ao longe um entusiasmo em sua voz. Alegria demais para uma rua deserta como aquela. Observar aquela louca em seu monólogo acabou virando sua diversão por alguns segundos. Não era à toa que uma completa desconhecida invadia trajetos que supostamente eram feitos apenas por ele. Aquilo era duplamente estranho. Desistiu. Ela daria um jeito de sumir pois o território mental era dele.

Passou ignorando-a e seguiu por outras ruas, explorando seus próprios modos de pensar. Andava por asfalto – sua massa cinzenta – que seguia quilômetros à frente a perder de vista. Era sempre noite, breu evidente e ele via claramente o gato preto saindo de uma lata de lixo a quinhentos metros a frente. O bairro muito lembrava o French Quarter, em New Orleans, só que sem uma alma penada sequer vagando por suas vias mal iluminadas. Quer dizer, tinha aquela mulher… Podia ser mais uma de suas ilusões ou frutos de sua miopia.

Olhando para os prédios – em sua maioria abandonados – vacilou e acabou lembrando como tudo era tão mais iluminado e cheio de pessoas, memórias que ele foi apagando por conta de sua aparente sensibilidade extrema. Aqueles estabelecimentos de sua imaginação eram repletos de personagens de literaturas os quais acabava trocando ideias e confraternizando desde quando aprendera a ler. Tinham muitas casas também. Muita música e algumas peças de Mozart eram trilha sonora em seus primeiros meses de vida. Influência de sua mãe, bailarina e amante das artes clássicas. Agora, o som que se ouvia era de vento – do constante inverno – e ao longe, algumas melodias indie que faziam seus passos seguirem de forma lenta na maioria das vezes.

As histórias que seu pai contava antes de dormir também estavam armazenadas em algum lugar daqueles caminhos infinitos. Ele lembrava vagamente de como elas eram. Não sabia se ainda existiam. Virou a esquina iniciando sua segunda volta no quarteirão. “Quando foi que começou a afastar as pessoas de sua vida?”, pensou. “Será que foram os vários lugares que morou e sempre teve que dizer adeus para aqueles que compartilharam momentos inesquecíveis?” A melancolia voltara. Quando foi a última vez que trocara palavras de verdade com alguém?

– Ben, você gosta de feijão?

– Com temperos, até a realidade é boa.

[…]

– Você acredita que há vida inteligente pelo universo a fora? – uma outra pessoa curiosa o indagou.

– Não existe nem na terra. – Pontuou

[…]

– O que você costuma fazer para relaxar? – um terceiro elemento ousou saber.

– Seria o único propósito da folha o de cair? – retoricou.

Questionava coisas que as pessoas aprenderam a deixar quieto. Experimentava das experiências ocultas aos olhos curiosos e internalizava aprendizados únicos. Eram certezas demais disfarçadas de perguntas para ocultar uma mente acomodada nas próprias dúvidas sem ações solucionadoras. Perdido nas lembranças e rumando para nenhum lugar específico dentro daquele lugar ao qual chamava de “Megalópole das Indagações”, não reparou a presença da moça estranha, logo a frente, andando em sua direção. Quando percebeu, tardara seu tempo para fugir.

– Olá, onde estão as pessoas desse lugar? – a moça abordou-o sutilmente.

– Não aprecio multidões. – Retrucou.

– Então como eu entrei nesse lugar? Não há sol? Nem música?

– Você não consegue ouvir a voz do Lil Peep cantando ao fundo? – arqueou a sobrancelha.

– Lil o quê? – logo foi interrompida abruptamente.

– Esse é o meu lugar. Acho que você deveria…

– Ouço Mozart ao fundo. De onde vem? – acabou surpreendendo-o. Começou a olhar em volta procurando algum sinal de vida. Saltitou seguindo a melodia. – Você tem muito bom gosto, Ben.

– Meu nome… como você sabe meu nome?

– Eu tenho um livro com ele. Com o seu nome. Você me contou sua história, mas nunca me deixou chegar tão perto para entende-la. Sua solidão me apavora. É difícil de lhe encontrar até mesmo nessas ruas repletas de indagações. – soou quase como um sussurro se aproximando dele.

Era nítido que a jovem mulher sabia um pouco sobre a excentricidade daquele rapaz aparentemente perdido em questionamentos valorosos, mas que no final das contas eram vazios por se tratarem de meros questionamentos. Ele contara a ela, em ruas reais, diferentes daquelas, sobre sua infância, sobre seus pais, sobre as aventuras literárias vividas e sua descrença na humanidade. Ele fora machucado e agora atribuía toda maldade que sentiu na pele às demais pessoas, por puro medo de se ferir novamente.

– Você quem me deixou entrar. – ela assumiu – Eu não poderia vagar por essas ruas cinzentas sem que você permitisse. De que adianta uma jornada solitária sem companhias, confiança, música boa e algumas poucas certezas? Minha presença só prova o contrário do que você tanto prega.

– Não vamos todos morrer no final das contas? – ela notou em seus olhos tristes uma angústia mais profunda que ele lutava para esconder.

– Eu cansei de lhe procurar lá fora sendo que você só vive aqui, em ruas desertas. – disse ciente de que ele mudava de assunto para fugir.

– Mas eu vivo lá fora. Ninguém precisa saber. Não preciso viver para que as pessoas vejam. Se uma árvore cai e ninguém vê, a árvore caiu? – levantando um pouco o queixo, ocultando seus olhos da moça três palmos mais baixa.

– Não se trata de as pessoas verem ou não. Achei que havíamos superado as aparências…

– É um processo. – afirmou sucintamente.

– Devo ir embora, então, já que minhas tentativas de fazer você ter alguma simpatia por, pelo menos, alguma pessoa, estão sendo falhas. – ela baixou os olhos e tentou se convencer de sua próxima atitude de partir.

– Eu amo as pessoas.

– Sei. “Todos são situacionais e blá, blá, blá…” – soltou o comentário. – Um dia eu acredito.

– É como comer sal demais e querer açúcar. Come açúcar e tem sede. É uma droga viver essa fragmentação existencial. – Ben pareceu divagar mais ainda.

– Quer um suco de limão para todo esse açúcar ou um mar para todo esse sal? – perguntou pacientemente a moça.

– Talvez eu precise curar o medo de água antes.

Parecia que nada poderia ser feito. Preenchidos pelo silêncio e a inquietação, se sentiram rodeados por incertezas. Ela queria lutar para fazê-lo ver a vida de maneira otimista e não “realista” da maneira que ele tanto militava. Estava lá, nas ruas de pensamento dele, buscando as próprias respostas para soluções que não lhe demandavam um dedo sequer. Enquanto discutia solitariamente antes de encontrá-lo, riu, chorou, tentou entender. “Ele não conseguia enxergar o quanto ela se importava? Que tipo de vida ele queria?” Cansada de ficar no escuro do “e se” adentrou à escuridão de Ben procurando o “bem” nos sentidos mais plurais.

O jovem havia se conformado. Não havia nada que pudesse ser feito para salvar as pessoas de si mesmas. As luzes não precisavam necessariamente se acenderem e nem o sol fazê-lo suar. Era confortável como estava. Seu mistério ainda continuava. Assim ele permaneceu por muito tempo, até a conformação o fazer suar pelos olhos.

 

 

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